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Entrevistada: Sra. Mery Aidar Bassi

Entrevista realizada em: 03/10/2001
Local: Residência da entrevistada
Entrevistadores: Mariza, Carmo e Luiz Augusto
TCC - Universidade do Vale do Paraíba
Curso de História
Título: ENTRE CULTURA E ATOS CÍVICOS: POLÍTICA CULTURAL EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS
Ano: 2011
Link: https://www.camarasjc.sp.gov.br/promemoria/wp-content/uploads/2025/06/00_tcc-entre-cultura-e-atos-civicos-politica-cultural-em-sao-jose-dos-campos-1.pdf

Havia grupos que faziam músicas, mas não era assim muita coisa. Antes do período do Madrigal, havia até uma orquestra que se chamava Orquestra de São José.

Nesse grupo, eu me lembro da Rita Vilaça e do Airton Vilaça. Ele tocava violino e ela piano, e faziam parte dessa, digamos, eles chamavam de orquestra.

Havia ainda alguma coisa no ITA, que trazia gente de fora, e tínhamos então algum movimento musical. Não havia nada de canto na cidade, não havia nem coral. O que havia eram pequenos movimentos do pessoal da cidade, inclusive os “Vilaça”.

Apareceu um professor americano que veio passar pouco tempo no Brasil, chamado Gustavo Hobson. Sua habilitação era matemática, mas gostava muito de música. A senhora dele tocava flauta e cantava e começaram a fazer alguns trabalhos de música no ITA. Ela trazia pessoas de fora para tocar e ele criou um grupo chamado Monday Madrigal (Madrigal das segundas-feiras), porque ensaiavam nesse dia da semana.

Lá tinham muitos estrangeiros e a única brasileira era eu. Isso durou bastante tempo, até que o professor foi embora, infelizmente, pois era um grupo muito bom e que fazia coisas tão boas, até em termos de música medieval e madrigais. Tivemos ainda outro regente que era do CTA, mas não deu certo, e nós ficamos meio sem eira nem beira. Então, o professor Luiz Gonzaga Guimarães Pinheiro, presidente do Conselho Municipal de Cultura da gestão Elmano Ferreira Veloso, resolveu montar um grupo de canto, um madrigal, e nos convidou, pois sabia do grupo que havia pertencido ao madrigal anteriormente desfeito.

Marcamos para o dia do Concerto de Natal, que seria apresentado na Igreja de São Benedito, onde também se apresentaria um grupo de São Paulo, do Centro Italiano. Nesse dia, nos foi apresentado o Maestro Valter Lourenção. Era uma pessoa com personalidade marcante e uma belíssima voz.

Nós, o maestro e o Conselho de Cultura nos reunimos e ficou acertado que ele viria uma ou duas vezes por semana para ensaiarmos. Passamos a ensaiar na Sala Veloso e, aí, também fizemos bons concertos.

Fizemos até uma espécie de concurso para escolher o nome do coral entre os participantes e, por coincidência, a minha sugestão foi aceita: Madrigal Músicaviva.

A primeira apresentação do Madrigal Músicaviva foi em 1969, e o coral foi de vento em popa, porque o regente era muito bom e os cantores muito entusiasmados. Fomos convidados, então, para nos apresentarmos na Rede Globo do Rio de Janeiro, para cantarmos no programa “Concertos para a Juventude”. Depois fomos para São Paulo e nos apresentamos com o Coral Ítalo-Brasileiro. Foi maravilhoso!

A Prefeitura pagava o maestro, mas nós não éramos remunerados, pois cantávamos porque gostávamos. Eles pagavam também as viagens, as partituras e as cópias. Tínhamos receio de que deixassem de nos patrocinar, pois não queríamos parar.

O auge do Madrigal foi na segunda metade de 1969, quando, juntamente com o Coral Ítalo-Brasileiro e o Coral de Santos, todos regidos pelo Maestro Valter Lourenção, formávamos o Coral do Brasil e fomos até Portugal, Espanha e Itália, onde cantamos para o Papa Paulo VI. Nessa apresentação, cantamos Ave Maria, de Guarnieri, em ritmo de samba, entre outras obras.

Depois cantamos na RAI (Rádio e TV Italiana). Fomos também até a Alemanha e, quando voltamos, nos apresentamos em São Paulo, no MASP (Museu de Arte de São Paulo) e no Teatro de Cultura Artística, e ainda no Rio de Janeiro.

Em todas as apresentações do grupo realizadas na Sala Veloso, compareciam o Prefeito e todas as autoridades da cidade. O Madrigal estava muito bem.

Aí saiu o Veloso e entrou Sérgio Sobral, e uma das primeiras coisas que ele fez foi fechar o Conselho Municipal de Cultura. Fomos procurá-lo e ele nos recebeu de maneira desprezível e até com pouco caso, afirmando que aquilo a Prefeitura não era obrigada a manter e que, se a gente quisesse, que procurasse nosso próprio meio de sobrevivência.

Saímos de lá desapontados e resolvemos fazer uma sociedade de música e conseguir meios para pagar o maestro. Criamos, então, a SOCEM (Sociedade de Cultura e Educação Musical), que funciona até hoje. Na verdade, ela foi criada para manter o Madrigal Músicaviva, mas nós fizemos algo mais abrangente para a música.

Fomos convidados, então, pelo governador Laudo Natel, para a reinauguração da Capela do Embu. Era um concerto fechado, só para convidados especiais, do qual eu nunca mais vou esquecer. Pedi ao governador para tirarmos uma fotografia com ele, e o Madrigal Músicaviva foi parar em todos os principais jornais.

Não demorou muito e o Sobral nos chamou para cantarmos na primeira reunião do CODIVAP nesta cidade e falou que manteria o maestro por conta do Departamento de Cultura. Isso muito nos ajudou e saímos do sufoco financeiro.

Depois o Sobral saiu e o Madrigal Músicaviva continuou. O maestro Valter Lourenção permaneceu conosco por mais de dez anos, quando, por motivos particulares, nos deixou. Vieram muitos outros maestros; porém, não os acompanhei, pois, quando o Maestro Lourenção foi embora, eu também desisti.

Percebi, então, que meu tempo de Madrigal já havia passado, mas continuei sempre dando força para a SOCEM, pois é ela que mantém o Madrigal Músicaviva vivo até hoje.

Enfim, o coral resistiu graças à garra e à vontade do grupo, superando todas as dificuldades, com muito sucesso, tanto na gestão Veloso quanto na de Sobral.

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