A VIDA DE NOEL ROSA CONTADA POR ALMIRANTE, CAPÍTULO XIII




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Título da publicação:
A VIDA DE NOEL ROSA CONTADA POR ALMIRANTE, CAPÍTULO XIII
Nome da fonte:
Revista da Semana
Eixo Temático:
Theatro São José
Dia:
Mês:
Dezembro
Ano:
1952
Tipo de fonte:
revistas
Década:
1950
Página:
39-41
Edição:
não consta
Editora:
não consta
Onde está a fonte pesquisada:
Arquivo online geral
Fundo ou Acervo:
Hemeroteca Digital Brasileira
Link original:
Endereço (mapa):
R. Quinze de Novembro, 99 - Centro, São José dos Campos - SP, 12210-070, Brazil
Local histórico:
Theatro São José
Nome do(s) artista(s):
Noel Rosa, Almirante, Alvinho, Carlos Ribas de Melo Leitão, Lamartine Babo, Francisco Alves, Mário Reis, Nonô, Peri Cunha, Graça Melo
Bando de Tangarás
Nome artístico ou apelido:
Almirante, Alvinho, Calulá
Função do(s) artista(s):
ompositor / Cantor (Noel Rosa); Narrador / Integrante do grupo (Almirante); Integrantes / Colaboradores do Bando de Tangarás (Alvinho, Lamartine Babo); Cantores / Músicos (Francisco Alves, Mário Reis, Nonô, Peri Cunha); Ator (Graça Melo)
Instrumento musical:
Violão, Voz
Nome do grupo artístico:
Tags:
#RevistaDaSemana #NoelRosa #Almirante #BandoDeTangaras #SaoJoseDosCampos #CordiaisSaudacoes #HistoriaDaMusica #HemerotecaDigital #1952 #1931
Transcrição completa:
A VIDA de NOEL ROSA
Contada por ALMIRANTE
CAPITULO VIII
VIAGENS DE NOEL ROSA ★ EPISÓDIO EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS ★ UMA PLATÉIA LUDIBRIADA ★ O ACORDAR DE NOEL ★ DESPERTADOR ORIGINAL ★ EMBARQUE PARA O RIO GRANDE DO SUL
QUANTAS cidades do Brasil conheceram Noel Rosa em pessoa? E como?
Dediquemos êste capítulo às poucas viagens que Noel empreendeu em sua curta vida de compositor.
Ao que me recordo, seu primeiro afastamento do Rio, em missão artística, se deu em 1931.
Tal fato talvez não merecesse qualquer registro, não fôsse a curiosa coincidência que então ocorreu.
Era Agôsto de 1931 quando o «Bando de Tangarás» recebeu, por intermédio do nosso companheiro Alvinho, um convite para se exibir, graciosamente, na cidade de São José dos Campos, em benefício não me lembro de que hospital ou casa de caridade. Sei que para lá seguimos, alegremente, num sábado, levando, além dos componentes efetivos do grupo, alguns daqueles numerosos colaboradores e amigos que Lamartine Babo, pitorescamente, designava como «adendos do Bando».
O convite partira de um cunhado de Alvinho — o Dr. Carlos Ribas de Melo Leitão, que naquele tempo desempenhava o cargo de delegado na acolhedora cidade paulista.
Em São José dos Campos, entre outras exibições, participamos de grandioso espetáculo que teve lugar na segunda-feira imediata, e que era o dia 7 de setembro de 1931.
Na véspera, visitando o comércio local, fomos encontrar, numa das principais casas de rádios, discos e eletrolas, a primeira máquina gravadora e reprodutora de discos para particulares.
Dias antes de nossa partida do Rio, havíamos feito a gravação de uma das últimas produções de Noel — o «samba epistolar» chamado «Cordiais saudações», e o grupo que nos acompanhava na excursão era exatamente o que havia participado daquele disco. E a prova do samba se achava conosco, em São José dos Campos.
Observando as coincidências que se verificavam, e que só nós conhecíamos, imaginamos aproveitar a oportunidade para um golpe de publicidade em favor do maior êxito do espetáculo principal de nossa excursão.
E mandamos anunciar, então, como grande atração da festa, uma gravação de discos que o «Bando de Tangarás» iria fazer, em pleno palco.
A fama do conjunto, os fins altruísticos do recital, e a novidade da gravação, fizeram lotar o Teatro da cidade, naquela noite de gala.
O espetáculo transcorreu num clima especial de expectativa. Lá para o fim, fizemos introduzir no palco a máquina gravadora e a colocamos no centro, em primeiro plano. Em seguida, nos demoramos numa complicada encenação, como que estudando a distância exata de cada executante perante o microfone (exatamente como nas gravações comuns), exibimos a prova que conduzíamos e que se diferençava dos discos normais por sua etiquêta inteiramente branca, pusemo-la no prato da máquina, já em movimento, e eu me dirigi à platéia.
Falei do prazer que sentíamos em poder revelar para o povo da cidade os segredos de uma gravação de discos, e arrematei oferecendo à platéia o sinal concludente de que o registro das vozes e dos instrumentos teria lugar, efetivamente, naquele instante.
— Que dia é hoje? — indaguei.
— 7 de Setembro de 1931! — responderam várias vozes.
— Pois bem, — continuei — para que todos fiquem absolutamente certos de que a gravação vai ser feita agora, vamos usar a data de hoje.
Nada poderia ser mais convincente.
Esperamos que cessasse o natural murmúrio de assombro e de assentimento, pedimos, depois, silêncio e atacamos o samba, cujo cantor era o próprio Noel:
Estimo que êste mal traçado
[samba,
Em estilo rude,
Na intimidade,
Vá te encontrar gozando saúde
Na mais completa felicidade,
(Junto dos teus, confio em Deus).
A assistência tudo ouvia e observava, procurando reter os mínimos detalhes da execução, a fim de conferi-los, quando a gravação fôsse reproduzida, em seguida:
Em vão te procurei,
Notícias tuas não encontrei
Eu hoje sinto saudade
Daqueles dez mil réis que te
[emprestei.
Beijinhos no cachorrinho,
Muitos abraços no passarinho,
Um chute na empregada,
Porque já se acabou o meu ca-
[rinho.
O conjunto que ali se exibia era, como já se disse, o mesmo que dias antes executara a música para os discos Parlofon e, portanto, nenhuma diferença poderia ser apontada, quer na tonalidade, quer na seqüência de efeitos sonoros. E Noel prosseguia:
A vida cá em casa está horrível,
Ando empenhado
Nas mãos de um judeu.
O meu coração vive angustiado,
Pois minha sogra ainda não
[morreu.
(Tomou veneno e quem pagou
[fui eu!)
Ia chegando o momento culminante:
Sem mais, para acabar,
Um grande abraço queira aceitar,
De alguém que está com fome,
Atrás de algum convite pra jantar.
Espero que notes bem:
Estou, agora, sem um vintém.
Podendo, manda-me algum.
Rio, 7 DE SETEMBRO DE 31.
Nesse ponto, era tal o suspense na platéia, que ninguém se moveu, quer nas frisas e camarotes, quer nas cadeiras ou nas torrinhas. Numa atitude de puro exibicionismo, retirei da máquina o disco que ali rodava inutilmente e o apresentei ao público.
— Um instante para esfriar a cêra! — pedi.
A absoluta credulidade da assistência, sua passividade ante as nossas manobras dignas de «camelôs» da Rua Larga, eram as evidências de que ali, ninguém, jamais, presenciara uma real gravação de discos.
Por fim, a chapa negra foi reposta no prato e a gravação se fêz ouvir através do potente alto-falante da eletrola.
A reprodução fiel dos sons produzidos ali, instantes antes, era como que um estupendo milagre que nós estivéssemos proporcionando àquela boa gente. E, no final, quando a voz de Noel repetiu a data, a platéia prorrompeu na mais entusiasmada ovação que qualquer de nós teria recebido até então.
Era nosso propósito confessar, em seguida, a verdade. A Incontrolável vibração da assistência mostrou-nos, todavia, a inconveniência de tal sinceridade. Revelar que havíamos ludibriado a todos, pareceu-nos uma rude afronta que nenhum dos espectadores perdoaria. Então, silenciamos, encalfiados.
Após aquêle dia, e já quando o «Cordiais saudações» seguia sua carreira vitoriosa, em várias ocasiões fomos obrigados a desviar o assunto ao encontrarmos pessoas de São José dos Campos que nos recordavam, com certo orgulho, a gravação histórica realizada em pleno palco de um teatro de sua cidade...
★
Em 1932, seguia Noel, com Francisco Alves, Mário Reis, Nonô e Peri Cunha, para o Rio Grande do Sul, onde o grupo se ia exibir no Teatro Guarani, de Pôrto Alegre.
Sabendo que o amigo viajaria para o sul, o hoje consagrado ator Graça Melo — filho do Dr. José Rodrigues da Graça Melo — foi à sua casa, para as despedidas, no dia exato de seu embarque.
Visita providencial, pois Noel ainda não se levantara e seu despertar, fora das horas habituais, representava sempre uma tragédia doméstica.
Noel era o primeiro a reconhecer a própria resistência para deixar o leito. Quando necessitava acordar em hora prefixada, a fim de cumprir trato de importância, ao chegar em casa, alta madrugada, deixava, por todos os cantos, sôbre a mesa, em cordas que estirava pelos corredores, pendurados nos fios das lâmpadas, no chão, à porta do quarto, sôbre o fogão, na cozinha, à entrada do banheiro — avisos alertadores, em letras garrafais, e onde a abundância de exclamações deixava entrever sua preocupação em não faltar ao compromisso assumido.
ATENÇÃO!!! MUITO IMPORTANTE! NÃO SE ESQUEÇAM!! PRECISO ACORDAR CEDO!!!! CEDÍSSIMO!!!! GRAVAÇÃO AS 10 DA MANHÃ!!! E’ IMPORTANTÍSSIMO!!!!! NÃO ACREDITEM EM DESCULPAS!!!!!!
Assim advertia à família contra as possíveis invencionices a que poderia recorrer, no dia seguinte, sob a pressão do sono invencível, quando tentassem despertá-lo.
Dona Marta, em ocasiões mais prementes, costumava valer-se de certo amigo da família, apelidado «Calulá», mulato bronzeado, gerdote, muito prestimoso, entregador de roupas de uma tinturaria no Boulevard 28 de Setembro.
Para despertar Noel, «Calulá» sentava-se à beira da cama e, com infinita pachorra, mansamente, sem alarde, levantava a ponta da coberta com que o sambista escondia a cabeça, e começava a repetir, em voz fanhosa, monótona, esticando bem o «e»:
— Noel... Noel... Noel...
Era um legítimo realejo-despertador, e seus efeitos não se faziam demorar. Ao fim de uns 30 zumbidos iguais, Noel Rosa, com um muxôxo, mudava de posição, repuxando, novamente, a coberta sôbre a cabeça. «Calulá», porém, não se deixava vencer. Buscava outra ponta e prosseguia na cantilena:
— Noel... Noel... Noel...
Nova posição, novo muxôxo, nova tentativa para se cobrir:
— Noel... Noel... Noel... — insistia o realejo.
Mais uma coleção dos enfadonhos zunidos e Noel não resistia.
— Já sei, «Calulá». Já vou me levantar. Pode ir embora...
Mas o paciente amigo não se deixava engrupir. Sabia perfeitamente que, se virasse as costas, Noel cairia, novamente, no sono. Então seguia, inalterado:
— Noel... Noel... Noel...
E não desligava sua «chateola» senão quando via Noel completamente desperto, de pé, firme, a caminho do chuveiro, onde o banho dissiparia sua última atração pelos lençóis.
★
Na manhã do embarque de Noel para o sul, D. Marta viu-se em apuros.
Faltava pouco para que o navio zarpasse e o filho ainda se conservava na cama, insensível aos berros, aos solavancos, à retirada violenta de tôdas as cobertas. Na véspera, sob o pretexto de despedir-se dos amigos, ficara a noite inteira pelas ruas, em adeuses que receberam excessiva lubrificação de «óleos» generosos.
Não havia tempo para que «Calulá» pusesse em prática seu método infalível.
Noel foi pôsto de pé, a muque. Enfiaram-lhe as calças, a camisa, o paletó. Atabalhoadamente, Dona Marta enchia a mala com as roupas que retirava de gavetas e armários.
O corre-corre aumentou quando o automóvel que o devia conduzir ao cais buzinou, aflito, na porta.
E Noel, meio carregado por Graça Melo, por D. Marta e pelo «Calulá», foi atirado dentro do táxi, como um trapo, semi-inconsciente. No trajeto, foi senão composto, à medida que os solavancos da velocidade o permitiam.
Os companheiros o aguardavam, já sem esperanças, e êle subiu para bordo, sobraçando a mala entreaberta, desgrenhado, camisa fora das calças, olhos empapuçados, mas feliz.
Foi o último passageiro a galgar o navio.
Observações e comentários da equipe CDM SJC

Este projeto foi desenvolvido pelo CDM SJC para preservação de memória e auxílio à pesquisa, em acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018, Artigo 7º) que dispõe sobre a utilização para estudos por órgão de pesquisa. A equipe realizou todos os esforços para identificar e creditar todas as imagens e obras, e se mantém à disposição para acrescentar (ou retirar) informações mediante solicitação por email (cdmsaojose@gmail.com)
